Como formatar um livro no Word para o Kindle e para o papel

Um guia de formatação no Word para quem vai publicar. Começa pelo livro digital, segue pelo impresso, e mostra onde o arquivo costuma dar problema.

O pacote chegou numa quinta-feira. Dentro, o meu livro impresso.

Estava tudo lá. Nenhuma página faltando, nenhum parágrafo cortado, nenhum capítulo fora de ordem. Do começo ao fim, exatamente o arquivo que eu tinha enviado.

E era muito feio.

Texto corrido, sem respiro entre as partes, citações que não pareciam citações, tudo escorrendo de uma página para a outra como se fosse um documento impresso em casa. Não estava errado. Estava apenas feio, o que é pior, porque errado se percebe antes.

Ninguém me avisou. Nenhuma gráfica avisa, nenhuma plataforma avisa. O que você manda é o que sai impresso.

Foi ali que eu entendi qual é a parte do trabalho que ninguém explica ao autor: entre o texto pronto e o livro existe uma etapa inteira, e ela é invisível até o dia em que o livro está na sua mão.

Este guia tem duas metades, uma para o livro digital e outra para o livro impresso. Se você já sabe para onde vai o seu arquivo, pule direto.

Para onde vai esse arquivo

Parece pergunta boba e é a única que importa, porque existem arquivos diferentes e eles são quase opostos entre si.

Se o livro vai virar e-book, você vai tirar coisas do documento.

Se ele vai para a gráfica ou para a impressão sob demanda, você vai colocar coisas.

E se o destino é uma editora ou um concurso literário, esqueça os dois. Nesse caso o arquivo é um original de leitura, em A4, margens iguais nos quatro lados, entrelinha folgada, sem enfeite nenhum. Ele não deve parecer um livro. Deve ser confortável de ler na tela de outra pessoa.

Pesquise “como formatar livro” e você encontra esses conselhos todos misturados, sem ninguém avisar que servem a coisas diferentes. Um resultado manda usar A4. Outro manda usar 14 × 21. Os dois podem estar certos. A pergunta é: para quê?

Para muito autor independente, o digital acaba vindo primeiro. Não porque o leitor necessariamente prefira tela. O e-book não tem custo de impressão, não tem estoque, não tem frete e elimina uma série de decisões que só aparecem quando existe papel envolvido.

Às vezes é simplesmente o que dá para fazer agora.

O e-book não tem página fixa

Essa é a informação que muda tudo e é a que menos aparece.

O texto do e-book escorre conforme o tamanho da tela e o corpo de letra que o leitor escolheu no aparelho. A frase que está no alto da tela do celular dele aparece no meio da tela do tablet dela.

Então some a margem. Some a medianiz. Some o rodapé, o cabeçalho, o número de página, a hifenização. Nada disso deve comandar o projeto, porque você não controla uma página fixa como controla no impresso.

O que sobra é pouco e é decisivo.

A linha que o Word precisa entender

Se você fizer só uma coisa deste artigo inteiro, faça essa.

Quando você digita o nome do capítulo e coloca em negrito, o Word vê um parágrafo comum que por acaso está em negrito. Ele não sabe que aquilo é um capítulo.

Aplique o estilo Título 1 naquela linha e tudo muda. O documento passa a entender que aquilo faz parte da estrutura do livro, e fica muito mais fácil criar sumário, organizar os capítulos e preparar o arquivo para conversão.

O estilo está na guia Página Inicial, no grupo Estilos. Clique com o botão direito em Título 1 e escolha Modificar para deixá-lo com a fonte e o tamanho que você quiser.

Uma coisa é fazer uma linha parecer um título.

Outra é fazer o arquivo entender que aquilo é um título.

O Enter que você apertou trinta páginas atrás

Capítulo novo começa com Ctrl + Enter. É a quebra de página.

O que não funciona é apertar Enter até o texto pular para a folha seguinte. Funciona até você acrescentar uma frase no capítulo anterior. Aí tudo escorrega, e no e-book o estrago é maior, porque cada Enter sobrando pode virar um espaço que você não queria.

É por isso que às vezes o capítulo três aparece colado no fim do capítulo dois ou surge um pedaço de tela em branco que ninguém sabe de onde veio. O problema pode ter começado trinta páginas antes.

Tab não é recuo

Configure o recuo em Página Inicial, no cantinho do grupo Parágrafo, em Especial, escolhendo Primeira linha. Meio centímetro é um bom ponto de partida no digital.

Com Tab ou com a barra de espaço, na tela do Word parece igual. Na conversão, pode desmontar.

E escolha um jeito só. Ou recuo na primeira linha, ou espaço entre parágrafos. Os dois juntos deixam o livro com cara de apostila.

A fonte que você escolheu não vai sobreviver

Ou pelo menos não conte muito com ela.

No e-book, quem lê tem bastante controle sobre a aparência do texto. Pode aumentar a letra, diminuir e, dependendo do aparelho ou aplicativo, trocar a fonte.

Você pode caprichar na Garamond e a pessoa ler em outra fonte porque simplesmente prefere assim. Vale saber antes de perder uma tarde nisso.

Suas imagens precisam sobreviver sem a página

No digital, a imagem também precisa fazer parte do fluxo do texto.

Evite colocá-la flutuando por cima dele ou dependente de uma posição exata na página. Imagem flutuante é feita para quem controla a página, e aqui ninguém controla a página.

E pense também no que acontece quando a imagem é vista numa tela pequena ou sem cor. Se ela depende completamente de um detalhe colorido para ser compreendida, isso merece atenção.

A pré-visualização inteira, não as três primeiras páginas

Depois da conversão, abra a pré-visualização e percorra o livro do começo ao fim.

É no capítulo nove que aparece a página em branco que você não pôs.

É no final que a imagem resolve sair do lugar.

É naquele capítulo curtinho que surge um espaço enorme onde não deveria existir nada.

Não confira só o começo.

O livro impresso

Agora entra tudo aquilo que não servia para o digital.

E um aviso antes: o arquivo do e-book não vira automaticamente um bom arquivo de livro impresso. São dois projetos diferentes. Salve uma cópia com outro nome e trabalhe nela.

Catorze por vinte e um

O formato 14 × 21 cm é muito comum em livros de texto no Brasil. É uma medida que funciona bem para romances, contos, biografias e vários outros livros em que o texto ocupa a maior parte da página.

No Word: Layout, depois Tamanho, depois Mais Tamanhos de Papel. Largura 14 cm, altura 21 cm.

Existe também o A5, que é 14,8 × 21. Oito milímetros de diferença na largura que quase ninguém percebe olhando, mas que fazem diferença quando você vai preparar e imprimir o arquivo.

Antes de fazer tudo, pergunte à gráfica ou ao serviço de impressão qual formato você vai usar.

É uma mensagem de uma linha e evita refazer o livro depois.

A parte que a cola engole

Livro tem lombada. O papel que fica preso na encadernação desaparece um pouco da vista do leitor. Se as quatro margens forem iguais, o texto do lado de dentro pode parecer espremido.

A solução se chama margens espelhadas. Em vez de esquerda e direita, o Word passa a trabalhar com interna e externa, e inverte os lados a cada página.

Vá em Layout, depois Margens, depois Margens Personalizadas. Na janela que abre, procure Várias páginas e escolha Margens espelhadas. Os campos mudam de nome sozinhos.

Um ponto de partida razoável para um livro de cerca de duzentas páginas: 2 cm em cima e embaixo, 1,5 cm na externa, 2 cm na interna.

Mas é ponto de partida, não regra. Livro mais grosso pode pedir margem interna maior, e o tipo de encadernação também faz diferença.

Logo abaixo existe um campo chamado Medianiz, que acrescenta espaço extra do lado da encadernação. Se você já aumentou a margem interna para resolver isso, cuidado para não somar os dois sem perceber. Senão o texto começa a fugir para o canto de fora.

Serifa, e um teste impresso antes de decidir

Fonte com serifa, aquelas com os pezinhos nas letras. Garamond, Book Antiqua, Palatino, Crimson. São escolhas muito usadas para texto longo em papel.

Corpo 11 ou 12, dependendo da fonte. A Garamond, por exemplo, desenha letras menores que outras fontes no mesmo corpo. Por isso eu não escolheria olhando só para a tela.

Imprima uma página antes de decidir, na impressora que você tiver em casa.

Leia.

Parece bobagem, mas na tela a gente aceita coisas que começam a incomodar depois de vinte páginas de papel.

Entrelinha entre 1,15 e 1,3 costuma funcionar bem em muito livro de texto. Espaço duplo é ótimo para original de leitura, trabalho acadêmico e texto que alguém vai revisar. No livro pronto, normalmente só infla a página e deixa a leitura estranha.

O primeiro parágrafo do capítulo não precisa de recuo

É uma convenção comum em livros: o primeiro parágrafo depois do título do capítulo aparece sem recuo e os seguintes voltam ao padrão normal.

Pegue alguns romances da sua estante e repare.

É um detalhe pequeno, mas livro é exatamente esse acúmulo de detalhes pequenos.

Quebra de seção não é quebra de página

São coisas diferentes, e a confusão entre as duas explica muito arquivo bagunçado.

A quebra de página empurra o texto para a folha seguinte e serve para começar capítulo.

A quebra de seção cria uma divisão administrativa no documento. Depois dela, o Word aceita numeração diferente, cabeçalho diferente, rodapé diferente e outras configurações independentes da parte anterior.

Ela fica em Layout, depois Quebras, na parte de baixo do menu.

Você pode precisar de uma quebra de seção entre as páginas iniciais e o miolo. É ela que permite, por exemplo, controlar a numeração sem obrigar folha de rosto, dedicatória e primeiro capítulo a obedecerem ao mesmo esquema.

A folha de rosto não é a página 1

Folha de rosto não leva número visível. Dedicatória também não. Sumário depende do projeto.

Com a quebra de seção feita, entre no rodapé da segunda seção e desmarque Vincular ao Anterior. Isso desconecta as duas partes do documento. Sem esse passo, mexer numa pode mexer na outra.

Depois vá em Inserir, Número de Página, Formatar Números de Página, e escolha onde aquela numeração deve começar.

Confira antes de comemorar.

No Word, configurar e funcionar não são necessariamente a mesma coisa.

O sumário vazio

Se você aplicou os estilos lá atrás, o sumário sai praticamente pronto em Referências, depois Sumário.

Se ele vier vazio ou ignorar alguns capítulos, é um bom sinal de que aqueles títulos só estão visualmente formatados e o Word não sabe o que eles são.

E o sumário não se atualiza sozinho toda vez que o livro muda de tamanho. Antes de gerar o arquivo final, clique nele e mande atualizar o índice inteiro.

ABNT não é formato de livro

Essa busca aparece bastante e vale um parágrafo.

As normas da ABNT existem para padronizar trabalhos acadêmicos e continuam importantes quando o conteúdo exige regras específicas de citação, referência e apresentação acadêmica.

Mas a configuração da página de um livro comercial não precisa parecer uma monografia.

Nenhum romance precisa ter margem de trabalho acadêmico só porque alguém pesquisou “formatação ABNT para livro”.

São coisas diferentes.

Cinco coisas que aparecem em quase todo arquivo que chega aqui

Recuo feito com a barra de espaço, que depois vira parágrafo torto.

Dois espaços entre as palavras, herança de quem aprendeu a digitar em máquina ou de hábitos antigos de digitação. Localizar e substituir resolve em segundos.

Travessão de diálogo feito com hífen. O hífen é o tracinho curto do teclado. O travessão de fala é o longo.

Título de capítulo em negrito manual, sem estilo aplicado. Já falamos disso duas vezes por um motivo.

Página em branco ou espaço enorme que aparece do nada. Pode ser Enter esquecido, quebra mal colocada ou alguma configuração que ficou perdida no documento.

Para enxergar tudo isso, ligue o botão Mostrar Tudo, aquele com o símbolo de parágrafo na guia Página Inicial. Ele revela as marcas invisíveis do documento.

É a ferramenta mais útil do Word e uma das menos usadas.

A capa é outro problema

Este artigo é sobre o miolo.

A capa não se resolve com configuração de página, e vale avisar antes que alguém chegue ao fim do livro achando que basta escolher uma imagem bonita, escrever o título por cima e mandar imprimir.

Capa envolve escolha de imagem, tipografia, hierarquia de informação, contraste, legibilidade em miniatura, relação com o gênero e com o leitor que aquele livro quer alcançar.

No impresso ainda entram quarta capa, lombada e medidas que dependem do formato e da espessura final do miolo.

É outro tipo de trabalho.

No miolo, você está organizando a leitura.

Na capa, está decidindo o que a pessoa percebe antes mesmo de abrir o livro.

Quando não compensa fazer sozinha

Se o seu livro é texto corrido, sem imagem, sem tabela, sem nota de rodapé, e você tem paciência para uma tarde de configuração, dá para fazer. Este texto tem o suficiente para começar.

Se ele tem fotografia, poema com quebra de linha própria, cartas, notas, glossário, tabelas, elementos gráficos ou se vai sair em digital e em papel ao mesmo tempo, a conta muda.

Não porque exista algum botão secreto.

Porque são muitas decisões pequenas que precisam ser tomadas do mesmo jeito duzentas ou trezentas vezes seguidas, e é aí que o cansaço entra.

O que eu aprendi com aquele pacote da quinta-feira é que ninguém vai te avisar.

Nem a plataforma, nem a gráfica, nem o Word.

O arquivo sai como você mandou.

E eu continuo pensando naquele pacote da quinta-feira. O livro não tinha nenhum erro que impedisse a impressão. Só não parecia o livro que eu achei que estava mandando imprimir.

Se você quiser saber em que estado está o seu antes de decidir qualquer coisa, mande o documento e a gente olha. Não é orçamento. É uma leitura do arquivo para dizer o que ele precisa e o que ele não precisa.

Às vezes a resposta é que já está quase pronto.

Clara
Clara

Fundadora da Histórias que Curtimos. Formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás e mestre em Administração. Trabalha com revisão, preparação de texto, diagramação e publicação de livros, acompanhando autores independentes desde o manuscrito até a obra publicada.

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