Aary guarda o batom vermelho e escolhe um rosa mais claro, escolhe também roupas que chamem menos atenção para o corpo. Ela é mulher negra e transgênero e contou isso a uma reportagem do UOL que perguntava a pessoas trans como elas gostariam de se vestir se não precisassem pensar no preconceito.
Eu parei no batom.
Porque visto de fora o rosa poderia parecer apenas uma escolha, uma preferência talvez, mas não era bem isso. Era uma decisão tomada depois de calcular o olhar dos outros, a rua e a possibilidade de violência. Quantas escolhas parecem livres só porque ninguém viu o medo que participou delas? A palavra escolha tem essa facilidade, mostra o que a pessoa fez e esconde o que lhe foi permitido fazer.
Também tenho certa desconfiança da expressão “se assumir”. Ela é bonita, parece falar de coragem, liberdade, de finalmente poder ser quem se é, mas se assumir como o quê? Como mulher? Como alguém que não corresponde ao que esperavam? Talvez se assumir seja menos descobrir quem se é e mais expor aos outros aquilo que por dentro já se sabe há muito tempo. A expressão parece descrever uma porta, antes dela estaria uma pessoa escondida, depois a mesma pessoa finalmente livre.
A vida não costuma ser tão organizada. Alguém pode ser conhecida por um nome entre amigos e por outro no trabalho, pode se vestir de uma maneira em casa e de outra para sair, pode falar abertamente em um lugar e medir cada palavra em outro. Isso pode parecer contradição para quem olha de longe, para quem vive às vezes é apenas a forma encontrada para manter juntas partes da vida que ainda não podem se encontrar.
Assumir publicamente quem se é tem uma parte que quase nunca aparece nas frases bonitas, tem aluguel, comida, passagem, emprego, tem a chave da casa e a dúvida sobre continuar podendo usá-la depois de uma conversa com a família. Coragem importa, mas coragem não assina contrato de aluguel nem garante que alguém passe da entrevista de emprego.
Quem tem alguma independência pode perder relações importantes e ainda conservar um lugar para dormir, pode procurar outro trabalho, mudar de bairro, reorganizar a vida. Continua doendo, mas existe algum chão. Quem depende justamente das pessoas que podem rejeitá-la precisa pensar também no que vai comer no dia seguinte.
“Eu fui expulsa de casa e tive que me prostituir para poder sobreviver porque a família não aceitava.”
Quem diz isso é Luma Andrade, em entrevista ao Brasil de Fato. Ela defendeu doutorado em Educação em 2012, tomou posse como professora efetiva numa universidade pública federal no ano seguinte e chegou a dirigir um instituto lá dentro.
Não estamos falando de um medo inventado. Um panorama reunido pelo Instituto Patrícia Galvão mostra barreiras que se repetem na família, na escola, na saúde e no trabalho, e uma pesquisa do Ipea encontrou o que desfaz a explicação mais cômoda: pessoas trans com diploma universitário ganham menos que pessoas não trans formadas do mesmo jeito. O estudo estava lá, o salário continuou menor.
Escrito assim tudo parece muito limpo: educação, saúde, trabalho, renda. Na vida isso pode ser uma escola abandonada porque todos os dias se tornaram insuportáveis, uma consulta adiada, um currículo que nunca recebe resposta, uma casa para a qual não se pode voltar.
Quando essas coisas acontecem ao mesmo tempo as alternativas vão diminuindo. Algumas escondem parte de si para continuar em casa ou conservar o emprego, outras passam a depender de amigos, de relações que nem sempre são seguras ou de trabalhos informais e precários. Para algumas mulheres trans e travestis o trabalho sexual aparece não como uma vocação que estava esperando para se revelar, mas como uma das poucas formas imediatas de conseguir dinheiro.
Família, escola, trabalho e dinheiro parecem assuntos diferentes quando colocados numa lista, na vida de alguém não são. A rejeição em casa pode dificultar os estudos, sem estudo algumas portas de trabalho ficam mais estreitas, sem trabalho e sem apoio chega uma hora em que a urgência decide antes da pessoa.
Mas a história costuma ser contada do fim para o começo. Nós vemos a mulher já empurrada para a margem e decidimos que ela está ali porque é vulgar. A palavra já quis dizer apenas comum, do povo, sem nada de extraordinário, em algum momento o comum virou inferior. Hoje chamar alguém de vulgar é dizer que essa pessoa é grosseira, indecente, deselegante ou de mau gosto e, dirigida a uma mulher, a palavra julga junto o corpo e a sexualidade dela.
É uma palavra que explica a margem sem obrigar ninguém a olhar as portas que se fecharam antes, é mais confortável condenar o destino do que admitir participação nele.
Não existe uma única história. Há quem tenha sido acolhida em casa e possa escolher entre caminhos que existem de fato, há quem tenha perdido a primeira família e construído outra, feita de amigas e de portas que abriram sem obrigação, e há quem viva aos pedaços, protegendo uma parte de si em cada lugar porque reuni-las ainda custaria a chave de casa.
Por isso nem todo silêncio é covardia, nem toda vida escondida nasce da vergonha e nem tudo o que chamamos de escolha foi realmente escolhido entre possibilidades justas. “Seja você mesma” continua sendo uma frase bonita, o problema é que quase sempre ela termina cedo demais. Falta perguntar onde essa pessoa vai morar, como vai se sustentar e quem estará ao lado dela quando a coragem deixar de ser uma ideia e começar a produzir consequências.
Antes de perguntar por que alguém não se assumiu, talvez fosse melhor perguntar o que lhe aconteceria se fizesse isso, antes de julgar o caminho tomado, olhar quais caminhos estavam realmente abertos.
E eu continuo pensando que a minha coragem não vai garantir o aluguel deste mês.
