O direito à banalidade

Luiza saía de casa mais cedo do que precisava. Gostava de tomar um café com calma antes de começar a trabalhar. Este texto é sobre isso: o direito de uma mulher trans viver uma vida comum.

Combater a transfobia não é pedir uma vida excepcional nem um conjunto de privilégios. É permitir o acesso àquilo que a maioria das pessoas nem percebe que tem.

Foi pensando nisso que a história de Luiza Bruna do Nascimento Souza me chamou atenção. E não foi, primeiro, por causa da ameaça de morte que ela sofreria no metrô. Foi pelo café.

Luiza saía de casa mais cedo do que precisava. Não por disciplina exemplar nem por medo de atraso. Gostava de chegar ao trabalho sem correr.

“Ainda bem que sempre saio antes do meu horário”

contou à reportagem que a acompanhou.

“Gosto de chegar tranquila e tomar um café antes de começar a trabalhar.”

Ela tinha 44 anos e trabalhava como orientadora de público no MASP, na Avenida Paulista. O trabalho tinha muito de repetição: bom dia, a exposição continua no subsolo, o senhor pode descer pelo elevador à direita. No almoço, gostava de comer bem, sem ficar contando quantidade. Tinha carinho especial por um restaurante porque, segundo ela, “essa comida me lembra comida de mãe”.

Talvez tenha sido isso que ficou comigo. Um café antes do trabalho, uma comida que lembra a mãe, explicar para alguém onde fica o elevador. Coisas tão pequenas que a gente quase nunca pensa nelas como felicidade.

A maior parte de nós passa pela vida sem perceber o luxo que existe em ter dias tão comuns que ninguém teria motivo para escrever sobre eles. A gente reclama do trânsito, da fila, do chefe, do café frio. E seria ótimo se fossem esses os problemas.

No mesmo período em que falava do café da manhã, Luiza contou outra história. Dessa vez estava num vagão de metrô, voltando para casa depois do trabalho.

“Quando entrei no trem, veio um cara do fundo do vagão me olhando com cara de ódio e me disse ‘seu traveco do caralho, se você descer na mesma estação que eu, eu te mato’.”

Luiza só queria voltar para casa. De repente, descer na estação de sempre tinha virado um cálculo porque um desconhecido acabara de prometer matá-la.

As duas coisas são a mesma vida. O café e o vagão.

Setenta e cinco

Em janeiro de 2026, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais publicou seu dossiê anual. Foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans no Brasil em 2025. Dessas vítimas, 77 eram travestis e mulheres trans. A maioria era jovem, negra e foi morta em espaço público.

O número caiu em relação ao ano anterior. Foram 34% menos assassinatos que em 2024, a maior redução da série histórica.

Parece uma boa notícia.

Só que há outro número na mesma pesquisa: 75.

Foram 75 tentativas de homicídio, 32% a mais que no ano anterior.

Quando li esse número, fiquei presa nele por algum tempo. Talvez porque a palavra “tentativa” pareça pequena demais. Alguém tentou matar 75 pessoas e não conseguiu. Para a estatística, elas sobreviveram. Para quem estava dentro daquela vida, porém, a história não acabou quando a tentativa falhou.

Depois vêm hospital, curativo, cirurgia, trabalho perdido, aluguel vencendo, medo de encontrar novamente quem fez aquilo.

Samantha conhece essa parte. Nascida em São Luís, cabeleireira e dona do próprio salão no Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, ela sobreviveu à pobreza, à prostituição e a mais de trinta facadas.

“Foi muito difícil continuar aqui no Campo Limpo depois disso”, contou. “Fiquei quatro meses sem trabalhar, muito machucada e com muito medo.”

Quatro meses com o salão fechado.

A renda para de entrar e as contas continuam chegando. O corpo vai melhorando, mas o medo não tem obrigação nenhuma de melhorar na mesma velocidade.

Renata Peron, atriz e recepcionista em São Paulo, perdeu um rim depois de um ataque transfóbico. Depois continuou trabalhando, cantando e presidindo uma associação de apoio a travestis e transexuais.

Continuou vivendo.

Há momentos em que essa expressão deixa de ser uma coisa automática e passa a descrever um esforço.

O Brasil segue, pelo décimo oitavo ano consecutivo, no topo do ranking mundial citado pelo dossiê da ANTRA. A própria associação alerta que a redução dos registros não significa necessariamente uma queda equivalente da violência. Há subnotificação, casos que nunca chegam à imprensa e registros feitos com nome e gênero diferentes daqueles usados pela vítima.

Uma pessoa pode morrer e desaparecer duas vezes: primeiro da própria vida, depois da estatística.

O banheiro do frigorífico

De todos os relatos, talvez este seja o que mais me incomode. Não porque seja o mais violento, mas justamente porque parece pequeno.

Ana só queria usar o banheiro.

Ana não é o nome dela. A reportagem preservou sua identidade. Ela tinha 32 anos e trabalhava como faqueira num frigorífico em Araguari, Minas Gerais. Em 2025 contou como escolhia o horário de ir ao banheiro.

“Como era uma empresa grande, o fluxo do banheiro era muito grande também. Então eu sempre esperava um horário em que tinha menos pessoas para poder entrar.”

Não houve soco nem ameaça de morte naquele momento. Era só uma ida ao banheiro, mas até isso precisava ser pensado. Ana observava o movimento, calculava o melhor horário e esperava.

“Várias vezes eu tentei ir de cropped, mas eles me faziam voltar e tirar.”

“Eu nunca chorava lá, mas chegava em casa e desabava.”

Ela continuava indo trabalhar.

E quando explicou por quê, a escolha ficou ainda mais cruel.

“Eu aguentava aquilo ali para poder fazer a minha vida, sabe? Porque eu não queria estar numa avenida, no frio, na esquina, correndo risco.”

Não era bem uma escolha entre um emprego bom e um emprego ruim. Era entre aquele trabalho e uma alternativa que, para ela, parecia ainda pior.

Em outubro de 2025, um estudo do Ipea cruzou dados de CPF e RAIS e encontrou somente 25% das pessoas trans em empregos formais, contra 31,8% da população em geral. Entre mulheres trans, o percentual caía para 20,7%.

A renda média também era menor, 32% abaixo da média nacional. Nem o diploma eliminava a diferença. Entre pessoas trans com ensino superior, o rendimento permanecia 27,6% abaixo do de pessoas não trans com a mesma escolaridade.

Esses dados têm uma limitação importante. O estudo trata da população trans em geral, não apenas de mulheres trans, e só consegue identificar quem já alterou nome e gênero no registro civil: 38,7 mil pessoas.

Quem não retificou os documentos, por falta de dinheiro, informação, acesso, medo ou simplesmente porque ainda não quis, não aparece nesse retrato.

Talvez a fotografia oficial seja menos ruim que a paisagem.

“Paulo morreu”

Samantha disse uma frase que ficou comigo:

“Paulo morreu, quero que me chamem de Samantha.”

Voltei a ela algumas vezes.

Um nome deveria servir para chamar alguém. Só isso. Mas há uma violência estranha em uma pessoa precisar declarar a morte de um nome para conseguir viver com o próprio.

Quando o nome vira discussão, tudo o mais espera. O cadastro espera, a consulta espera, a matrícula espera, a entrevista de emprego espera. Antes de explicar por que está ali, a pessoa precisa explicar quem é.

Antes de pedir qualquer coisa, precisa pedir para existir naquela conversa.

Luiza falou de um medo diferente. Menos explosivo, mais persistente. Na primeira vez em que precisou atravessar determinada praça, sentiu terror. Anos depois, já conhecida pelas pessoas do caminho, disse:

“Hoje é mais tranquilo, pois todos me conhecem, mas o medo nunca vai embora.”

Talvez essa frase seja pior justamente porque não diz que o medo passou. Diz apenas que ficou mais tranquilo.

O medo continuou ali. Aprendeu a andar junto.

Existem instrumentos jurídicos e institucionais tentando diminuir essa distância. Em outubro de 2025, a ANTRA e o Ministério das Mulheres lançaram o guia Todas as Mulheres: Dignidade, Cidadania e Direitos Humanos para Travestis e Mulheres Trans, reunindo informações e fundamentos legais de proteção contra a discriminação.

Desde junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal também determinou que homofobia e transfobia sejam enquadradas na Lei do Racismo enquanto não houver legislação específica aprovada pelo Congresso.

Tudo isso importa. Lei importa, decisão judicial importa, política pública importa.

Mas existe uma medida de sucesso que dificilmente cabe num texto legal: chegar o dia em que ninguém precise lembrar dessas normas para conseguir atravessar uma terça-feira qualquer.

Só trabalhar e viver a nossa vida

Luiza, Samantha e Renata falaram à Ponte Jornalismo em janeiro de 2018. Ana falou à Repórter Brasil em junho de 2025.

Sete anos separam essas histórias.

É bastante tempo. Dá para mudar de emprego, terminar uma faculdade, começar um relacionamento, terminar outro, mudar de cidade, engordar, emagrecer, perder alguém, conhecer alguém e descobrir que afinal café sem açúcar nem é tão ruim.

Também dá para sete anos passarem e algumas coisas continuarem estranhamente parecidas.

Combater a transfobia não é pedir que alguém tenha uma vida extraordinária. É justamente permitir que ela possa ser comum.

No fim, continuo pensando no café de Luiza.

Talvez porque ele seja o contrário de quase tudo o que veio depois neste texto. Não há coragem naquele café. Não há superação, militância ou resistência. Há apenas uma mulher chegando mais cedo ao trabalho porque gosta de começar o dia com calma.

Talvez seja esse o direito à banalidade.

Sair de casa mais cedo porque se quer tomar café. Almoçar num lugar porque a comida lembra a da mãe. Abrir o salão de manhã e saber que ele continuará aberto no mês seguinte. Ir ao banheiro quando der vontade. Usar um cropped num dia quente. Descer do metrô na estação onde se quer descer.

E também reclamar do trabalho, fazer planos ruins, mudar de ideia, apaixonar-se por quem não presta, gastar dinheiro numa coisa inútil e se arrepender depois.

Poder desperdiçar um pouco da própria vida com coisas que não têm importância nenhuma.

Não precisar ser corajosa o tempo todo.

Não precisar ser exemplo de superação.

Não precisar transformar cada ida ao trabalho numa vitória.

E envelhecer.

Principalmente envelhecer.

Porque talvez uma vida comum seja exatamente isso: ter tempo suficiente para acumular cafés demorados, escolhas ruins, amores que deram certo e outros que não deram, contas pagas atrasadas, planos abandonados e histórias que não interessariam a nenhuma reportagem.

Ana já tinha dito tudo isso de um jeito muito mais simples:

“O que a gente quer é só trabalhar e viver a nossa vida. A gente não quer mais nada além disso, sabe?”


Fontes


Clara
Clara

Fundadora da Histórias que Curtimos. Formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás e mestre em Administração. Trabalha com revisão, preparação de texto, diagramação e publicação de livros, acompanhando autores independentes desde o manuscrito até a obra publicada.

Artigos: 7

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